Gabriel Moura nasceu há 41 anos, numa vila no Lins, subúrbio do Rio de Janeiro. A mãe, irmã do maestro Paulo Moura, estudara piano e transmitira o gosto pela música ao filho, que passou a infância na rua, como todo garoto da área – de short e descalço, correndo atrás de pipas. Aos 10 anos, Gabriel aprendeu violão na igreja, e foi tocar nas missas, nas procissões e em encontros de jovens. Aos 14, ele entrou para a escola musical dos bares – fez muito voz-e-violão na noite, em estabelecimentos no Méier, Vila Isabel, Tijuca, Madureira e Botafogo. No começo dos anos 90, emplacou um samba-enredo na Caprichosos de Pilares – o animado “Terceiro Milênio em Busca do Juízo Afinal”, que falava da chegada iminente do ano 2000.
Foi aí que ele chamou a atenção do tio. O maestro não tardou então a chamar o sobrinho para cantar em sua Orquestra de Gafieira, onde ele completou sua formação musical. Nessa mesma época, Gabriel conheceu no Méier um rapaz de nome Jorge Mário, que ajudou a encaminhar artisticamente na Companhia de Teatro da UERJ, na qual fazia a direção musical junto com o tio. Jorge virou Seu Jorge e, enquanto Gabriel estava trabalhando em Lisboa, fundou um coletivo musical chamado Farofa Carioca. Na volta ao Brasil, o amigo entrou no grupo, que não demorou a virar uma sensação no cenário alternativo, de palcos e ruas, do Rio de Janeiro. O Farofa provocou um leilão de gravadoras e, enfim, em 1998, a PolyGram lançou o disco Moro no Brasil, de sucessos como “Doidinha” e “São Gonça”, parcerias de Gabriel e Jorge. Com um som que unia toda a tradição musical dos subúrbios cariocas (de rodas de samba, bailes charme, samba-rock e funk) ao baião e o reggae, o grupo se consagrou no circuito de shows e apresentou-se até no Free Jazz Festival.
No entanto, em meio à subida do Farofa Carioca ao sucesso nacional, Seu Jorge saiu em carreira solo. Gabriel ainda ficou mais um ano no grupo, antes de ir se dedicar ao teatro, fazendo a criação e direção musical de óperas populares como O Incrível Encontro e uma adaptação da Electra, de Sófocles (que foi encenada na quadra da Mangueira e no Theatro Municipal). Em 2002, ele ganhou o Prêmio Shell de Teatro pela trilha de Noites do Vidigal, do grupo Nós do Morro – e esse foi apenas um dos cerca de 40 espetáculos teatrais que Gabriel reuniu em seu currículo. Nos palcos da música, ele seguiu com o projeto 4Cabeça (ao lado dos cantores e compositores Rogê, Baia e Luís Carlinhos) e com a Orquestra SAGA, uma big band de periferia montada com músicos de São Paulo. Enquanto isso, ele ainda renovou sua parceria com Seu Jorge, que renderia os sucessos “Burguesinha” e “Mina do Condomínio”, do disco América Brasil. “Mas desde moleque eu tinha a necessidade de fazer o meu disco”, diz Gabriel. E aí veio Brasis, um CD no qual ele defende sua história musical, de calçada, boteco e barzinho.